Quando a arquitetura encanta os olhos… e atordoa os ouvidos.

Neste artigo, mostramos como escolhas arquitetônicas modernas podem comprometer o conforto acústico e por que soluções bem integradas — especialmente no teto — são essenciais para criar ambientes realmente confortáveis, funcionais e agradáveis de se viver.

Fernando Rassi

fevereiro 18, 2026

Existe uma cena que se repete todos os dias no Brasil inteiro: o cliente entra em um ambiente recém-inaugurado, olha para cima, abre um sorriso e diz:
“Que espaço maravilhoso!”.

Pé-direito alto, vidro do chão ao teto, concreto aparente, madeira natural, linhas minimalistas, zero excessos. A estética é impecável. Instagramável. Arquitetonicamente premiável.

Cinco minutos depois, alguém tenta conversar.

E aí começa o caos.

A verdade — pouco dita, mas cada vez mais evidente — é que, muitas vezes, a própria arquitetura cria o problema acústico que depois ninguém sabe explicar. O pé-direito alto é o primeiro vilão silencioso. Ele é bonito, imponente, transmite sofisticação e amplitude. Mas, acusticamente, é perigoso. Quanto maior a altura, maior o volume de ar e mais tempo o som leva para se dissipar. A reverberação aumenta, a fala perde definição e o ambiente fica “duro”. O espaço impressiona os olhos, mas cansa os ouvidos.

Em seguida, entra em cena o trio queridinho da arquitetura contemporânea: vidro, concreto e madeira. Visualmente sofisticados. Acusticamente implacáveis. São superfícies rígidas e altamente reflexivas. O som bate, retorna, cruza, se soma e se embaralha. Em restaurantes modernos, isso se transforma naquele ruído constante que obriga as pessoas a elevar a voz. Em escritórios, reuniões viram disputas vocais. Em igrejas, a compreensão da palavra fica comprometida. Não é eco — é reverberação excessiva, aquela persistência sonora que confunde tudo.

“Mas ambientes modernos são mais barulhentos?”

Em muitos casos, sim.

Isso acontece porque o design contemporâneo valoriza superfícies limpas, amplas e contínuas. O minimalismo, apesar de elegante, costuma eliminar justamente os elementos que antes ajudavam a absorver o som: cortinas pesadas, tapetes, estantes cheias, mobiliários volumosos. O minimalismo busca leveza visual. A acústica precisa de massa e absorção. Um quer retirar. O outro precisa adicionar.

É aí que nasce o conflito silencioso entre forma e função.

E o mais curioso é que a solução, na maioria das vezes, não está nas paredes. Está no teto.

O teto é o grande campo estratégico da acústica — e quase sempre o mais negligenciado. Ele concentra grande parte das reflexões sonoras, especialmente em ambientes com pé-direito alto. Quando bem tratado, pode resolver até 70% do problema acústico de um espaço. Nuvens acústicas, forros absorventes e painéis suspensos estrategicamente posicionados transformam completamente a experiência sonora, sem comprometer o projeto arquitetônico. Pelo contrário: podem valorizá-lo.

O erro não está na arquitetura moderna. Está em projetar apenas para os olhos. O conforto acústico não aparece em fotos, mas aparece na permanência do cliente no restaurante, na produtividade do escritório, na clareza da pregação e na experiência de quem vive o espaço.

O design cria o problema quando ignora o som.
Mas também pode ser o protagonista da solução.

Porque um ambiente só é verdadeiramente sofisticado quando é bonito de ver — e confortável de ouvir.

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